Loucura pós-parto

“Louca, louca, louca, estou ficando louca” era o que eu pensava logo depois que a Alis nasceu. Ninguém nesse mundinho me falou do “baby blues”, da melancolia pós-parto, da loucurada hormonal que rola depois do parto. Nin-guém! De uma hora pra outra me vi chorando por todos os cantos, chorando com cenas i-d-i-o-t-a-s de filmes (eu chorei vendo a última sequência de “Um lugar chamado Notting Hill”, me mata!), com frases proferidas com entonações obscuras (obscuras na minha cabeça, notem), com trocas de fralda, visitas… em basicamente todas as circunstâncias que seguiram as duas semanas após o nascimento da pequena.

Sim, eu tive capacidade de chorar enlouquecidamente mesmo com uma gracinha dessas que, no terceiro dia, já tinha espasmos que pareciam sorrisos!

As pessoas tinham medo de falar comigo. “Lou-ca”, elas pensavam, “ela vai começar a chorar a qualquer segundo”. Uma amiga me pergunta até hoje se eu tô legal, me consola dizendo que as coisas vão melhorar, que eu vou ficar bem. Acho que, pra ela, eu nunca vou me recuperar completamente e o que eu senti deixou cicatrizes profundas no meu ser… e que eu estou me fazendo de louca e fingindo que estou bem agora. A verdade é que eu nunca fiquei mal de verdade. Eu mantinha diálogos longos dentro da minha cabeça entre a minha metade sã e a minha metade louca, e era mais ou menos assim:

LOUCA: Céus, a minha vida acabou, o que eu vou fazer? Eu não sei ser mãe!

SÃ: Melina, você só tá assim por causa dos hormônios, são reações químicas, só isso…

[Pausa para autocomiseração por parte da minha metade louca, seguida de choro]

LOUCA: Mas, mas… [choro]

SÃ: Pare de chorar, recomponha-se, mulher! Parece até que nunca estudou biologia na vida…

LOUCA: Mas NINGUÉM avisou que eu me sentiria dessa forma! Isso acontece com todo mundo? POR QUE diabos as pessoas têm filhos se é isso que se sente depois do parto?

SÃ: Porque as pessoas não SENTEM isso, é só uma reação química no seu cérebro, tô me sentindo uma vitrola aqui, criatura!

[Pausa para a expressão “mas, mas…”]

…*…

A minha metade louca estava sempre procurando uma explicação para justificar aquela melancolia toda, mas a minha metade sã e racional sabia que nada era nada naquela sensação de vazio. Bom, eu estava mais vazia mesmo, isso fazia sentido. Aquela barriga que eu carreguei tranquilamente por nove meses agora não existia mais e, “pior”, ainda precisava de atenção constante, seio, fralda, banho, colo. Falta, eu acho, uma orientação melhor por parte do sistema de saúde, da mídia e priiincipalmente da família, das amigas, das colegas, das pessoas que já viveram isso e sabem que isso passa. E passa mesmo. E depois que passa (correndo o risco de escrever a palavra “passa” 300 vezes no mesmo parágrafo) é uma maravilha. Você percebe que a sua vida não foi roubada, foi presenteada (e agora correndo o risco de parecer brega usando a palavra “presenteada” mesmo).

[Mas assim… eu tive sorte: um marido fodástico que me deu todo o apoio, uma mãe que ajudou com toooodas as minhas crise e uma grande amiga que tinha acabado de ganhar uma filha linda e que me ajudou a superar as crises!]

Cara de "mãe, tudo bem? Você não vai ficar louca de novo, né?"

Nas duas primeiras semanas eu achei que a minha vida ia acabar, que eu nunca mais iria dormir, nunca mais iria ao cinema, nunca mais pegaria uma balada, nunca mais_______ [insira toda e qualquer coisa aqui]. Hoje em dia eu acordo de madrugada para amamentar louca de vontade de cheirar a minha filha. Eu sei, eu sei, coisa de louca, mas uma louca de outro tipo: Louca pela filha. Agora as pessoas me dizem (e eu acho muito irritante, só pra constar) que eu vou estragar a Alis porque estou o tempo todo grudada nela. Nem estou, é intriga da oposição. Acontece que as pessoas chegam na hora que estou com ela no colo, é pura coincidência!

Mas a questão é essa mesmo: passa. Na UFSC tinha uma pichação bem dãr, mas que tem tudo a ver e que todo mundo que estudou lá até 2007 ou 2008 (não me recordo quando a pichação foi coberta) sabia e falava o tempo todo. Ela dizia: “Tudo passa, até uva passa”. Para as futuras mães digo o seguinte: não se descabele (acredite, vai acontecer naturalmente porque nos primeiros dias você nem olha pro seu cabelo), não pense que o mundo acabou, mas chore sempre que quiser porque ajuda muito, mesmo que te achem louca.

Depois fica tudo louco de bom, pode apostar!

PS: O que eu tive foi causado por uma questão hormonal, não foi depressão pós-parto. A depressão pós-parto causa pensamentos muito negativos relacionados a suicídio, incapacidade emocional de cuidar do bebê, entre vários outros sintomas. Se você estiver sentindo qualquer coisa parecida com isso, procure ajuda o quanto antes.

6 Comentários

Arquivado em Alimentação & Saúde

6 Respostas para “Loucura pós-parto

  1. Bem certinho….. jah passei por isso duas vezes! Ateh confundiram com depressao pos-parto hahah =P

  2. Pingback: O que não te falam quando você está grávida | "Mãerinheira" de Primeira Viagem

  3. Tati Vargas

    seu blog é ótimo, gostei do seu estilo de escrever. Sabe, quando meu filho nasceu eu chorava porque “coitadinho, ele não pode escolher as roupinhas que vai usar, tem que usar o que eu coloco”…mas essa é uma loucura normal e que realmente passa – mas que quando estamos nela, achamos que nunca vai passar

  4. Pingback: Rotinas de Beleza | "Mãerinheira" de Primeira Viagem

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