Maternidade X Trabalho

Aviso: este post ficou GIGANTE, mas creio que o assunto pede um post gigante mesmo. Espero que gostem e/ou que ajude na reflexão “maternidade X trabalho”.

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Já falei bem brevemente sobre o assunto maternidade X trabalho aqui e a Chiara falou aqui, mas acho que é preciso falar de novo e sempre porque este papo dá muito pano pra manga e é, eu acredito, uma das questões fundamentais quando se pensa em ter filhos ou não. Veja bem, eu disse uma das questões, não a única, mesmo porque cada pessoa tem condições e necessidades particulares. Não quero dar aqui a impressão de que estou generalizando, vou apenas dar a minha opinião sobre como resolvi este dilema e como vejo que as pessoas em volta o resolvem.

Bom, a minha história aconteceu assim: quando engravidei (e a gravidez foi semi-planejada, porque achamos que, parando com a pílula, não engravidaríamos imediatamente, e foi isso que aconteceu), estava trabalhando em uma empresa das 9 às 18h. Eu gostava do meu trabalho, adorava os meus colegas e tinha a certeza de que voltaria a trabalhar e organizaria um esquema com o meu marido e com as avós/tias para tentar fazer com que a Alis não ficasse em período integral na escolinha todos os dias. Depois que a Alis nasceu, já não tive mais tanta certeza, mas a minha situação é bem particular. Eu estava trabalhando em uma empresa, mas tenho veia acadêmica. Amo estudar teorias cabeçudas (não que eu as entenda, mas amo) e tenho mestrado, então sempre tive a ideia de fazer doutorado quando meu filho ou filha nascesse. Pois bem. Alis nasceu, eu entrei em licença maternidade e estava me programando para tirar os 4 meses + 1 mês de férias, e então meu marido tiraria 1 mês de férias e, se você é bom/boa com contas, percebe que a nossa intenção era colocar a Alis na escolinha quando ela completasse 6 meses. É, mas isso não aconteceu. Meu chefe na época insistiu muito para eu voltar a trabalhar antes e acabamos fazendo um acordo: eu voltaria antes das férias se pudesse trabalhar 5 horas por dia na empresa + 3 em casa até a Alis completar 1 ano para ela não precisar ser matriculada em período integral. Ai, que tolinha que eu fui em acreditar que daria conta de trabalhar com neném em casa. Eu sei que várias pessoas conseguem, e acho mesmo que é possível se você estiver a fim de uma aventura de três turnos, mas eu não consegui. Senti culpa, senti remorso, senti vontade de curtir esse primeiro ano com ela sem ter que trabalhar no meio período em que eu deveria trabalhar de casa.

Foi aí que tracei um plano. Desde que me formei em letras – inglês, sempre trabalhei como tradutora autônoma e encontrei aí uma solução. Entrei em contato com as empresas que costumavam me mandar trabalhos esporádicos e me ofereci para trabalhar com mais frequência. Uma vez que as traduções meio que se igualaram ao meu salário na empresa onde trabalhava, pedi demissão (imagina o caos que foi a minha vida no mês em que decidi colocar o plano em prática). Saí da empresa e me dediquei 100% ao ofício da tradução e foi ó-ti-mo. Alis continuou (continua) na escolinha por meio período e é este o momento que uso para trabalhar e estudar. Inscrevi-me como aluna especial no doutorado, fiz o projeto e a prova e passei. O meu plano deu certo e me possibilitou fazer o que eu queria fazer, que era passar o tempo com a Alis realmente com ela, levando-a para passear, brincando, curtindo e realmente participando desse momento da primeira infância.

Agora seguem algumas considerações sobre o meu caso e a minha opinião sobre o assunto. Eu escolhi uma profissão onde a maleabilidade do tempo de trabalho é possível. Eu sei que muita gente não tem essa opção, então a minha opinião é a seguinte: se eu fosse médica ou engenheira ou sei lá e tivesse e quisesse trabalhar o dia inteiro, começaria a trabalhar com um elemento chato que atrapalha demais a vida: a culpa. Seja qual for a escolha de uma mãe: trabalhar das 8 às 17h,  parar de trabalhar, organizar os horários para poder passar mais tempo com o filho ou filha, a culpa tem que sair do cenário logo no começo. Para mulheres que querem ser mães e não querem dar uma pausa ou desacelerada na vida profissional, eu digo: não pausem e não desacelerem (embora eu ache que desacelerar é uma consequência por causa do cansaço no primeiro ano). Vai ser melhor pra todo mundo: pra mãe, pro pai e pro neném se a mãe fizer o que sente que tem que (e pode, claro) fazer. Parar de trabalhar para ficar durante anos e talvez até por uma vida inteira se remoendo não vale a pena para ninguém, mas a minha opinião é que tem que ser sem culpa. Temos hoje em dia ótimas escolinhas que cuidam muito bem dos nenéns, mas muito bem mesmo. Vejo pela Alis. Como é boa a relação dela com as professoras e com os coleguinhas. Ela se alimenta super bem na escola, às vezes melhor do que em casa, ela aprende a ter rotina, aprende musiquinhas e parece sentir que aquele é o espaço dela, o espaço onde ela interage com a galera dela, sabe? Juro que acho que os coleguinhas dela que ficam na escolinha em período integral parecem tão felizes quanto ela.

A minha mãe, por exemplo, só pôde ficar comigo e com a minha irmã até completarmos 3 meses cada uma e foi-se de volta para o trabalho. Passamos muito tempo com babás e em escolinhas e não fiquei traumatizada. Tenho um ótimo relacionamento com a minha mãe e uma certeza absoluta: conhecendo-a como a conheço, sei (tenho certeza) que se ela tivesse largado o trabalho por nós não seria a mulher bem resolvida que é hoje, com a vida profissional que tem e teve. À minha volta e na minha própria escolha vejo o mesmo. Quem quis sair do trabalho assim o fez ficou mais feliz quando chegou a hora de voltar (minha irmã, que se dedicou 100% aos filhos até eles completarem uma certa idade e hoje em dia está encaixada e feliz no mundo profissional). Eu, que dei uma reorganizada na vida para poder dar mais atenção à Alis e ainda assim trabalhar, estou muito satisfeita. E quem tiver que voltar ao mercado de trabalho, tem que voltar sabendo que o filho ou filha será bem cuidado na escolinha e, é claro, se esforçar para fazer quase todos os momentos juntos serem especiais, com passeios, atenção e brincadeiras (na verdade, isso vale pra todo mundo, vamos combinar, e eu disse “quase todos os momentos juntos” porque, sejamos honestos, somos humanos). Além disso (minha opinião, repito), acho que vale a pena dar umas escapadas do trabalho para tirar o filho mais cedo da escola de vez em quando, usar o horário do almoço para visitar na escolinha, enfim, não encarar o trabalho como uma pequena prisão para onde você vai para ficar longe d@ filh@ o dia inteiro. Vira e mexe vejo os pais dos coleguinhas da Alis que ficam em período integral visitando os filhos no horário do almoço, nem que seja pra caminhar um pouco na frente da escolinha e dar umas risadas.

Por enquanto é isso. Espero poder contribuir mais com esse assunto de suma importância assim que der início aos meus estudos sobre maternidade (falei um pouco sobre isso aqui).

Beijos, mamacitas, e força na peruca!

2 Comentários

Arquivado em Alimentação & Saúde, Vida de mãe

2 Respostas para “Maternidade X Trabalho

  1. Meg

    Minha irmã engravidou na metade do doutorado! No final, deu tudo bem certo porque minha mãe largou a faculdade (pela quarta vez) pra ficar com meu sobrinho em meio-período, quando ela ia pra UFSC pra escrever e cumprir com as responsabilidades da CAPES. Com o passar dos anos, ela e o marido (ambos acadêmicos) vêm usando o tempo depois que ele dorme pra fazerem o dever-de-casa de todo dia que professores universitários têm. Durante o dia, ele têm a supervovó em tempo integral e os pais estão juntos em cada momentinho, do almoço à noitinha ao videogame e tudo o mais. Todo mundo está curtindo bastante, só a dinda que mora longe que reclama um pouquinho…

    • melsavi

      Dinda, tens que te aprumar e ajudar a irmã, viu? hehe Legal, acho que a carreira acadêmica é muito boa para quem tem filho! Meus pais, embora fossem SUPER work-oriented, eram acadêmicos, então podiam realmente organizar o tempo deles🙂 Beijo!

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